terça-feira, fevereiro 13, 2007

Peças de Roupa : : Rui Ribeiro

Condensar momentos musicais em apenas três escolhas é, reconheço, tarefa demasiado complicada. E injusta, sobretudo para quem convive diariamente com música. Mas aqui pelo “peças”, o que se pede é mesmo isso: momentos. Desta feita, é com enorme prazer que partilho no Lenta as escolhas de Rui Ribeiro, o autor de Som Activo um dos melhores sítios na net sobre música.
1 - Christiane F (Soundtrack) - David Bowie (1982)
Quando vi pela primeira vez o filme Christiane F, ainda Trainspotting estava longe de ser rodado. A dureza do filme, a simplicidade e realidade das imagens, marcaram-me. Vi-o, era muito novo. E não conhecia David Bowie… Mas aquele entrar no corredor do Shopping para roubar umas moedas, e subir ao terraço do edifício ao som de "Heroes", foram o começo desta paixão… Desde então foi o procurar o antes, e seguir o depois.
2 - Toward the Within - Dead can dance (1994)
Este álbum ao vivo, mais do que uma compilação dos melhores temas dos Dead Can Dance, é a possibilidade de dar vida aquelas canções que me "incomodavam". Aqui, e sem apetrechos, a sublime arte de composição, interpretação, e vocalização dos Dead Can Dance está ao rubro. A genialidade é ainda maior se virmos o vídeo do concerto. Arrepiante no mínimo, a capacidade de visualização daqueles sons, a combinação da presença celestial de Lisa Gerrard com o contrabalanço de Brendan Perry, ali, mesmo ao lado. E todas aquelas percussões ainda hoje me entoam nos tímpanos, desde o mais simples sininho de Lisa, aos brutais exorcismos do percussionista animalesco que estava lá ao fundo…
3 - The Downward Spiral - Nine Inch Nails (1994)

Quando ouvi pela primeira vez este disco, qualquer coisa estranha se apoderou de mim. Era aquela dureza das guitarras combinadas com o delicado aconchegante (aqui e ali), das máquinas como em "Closer", tema maior para mim deste disco que, sem dúvida alguma, é o melhor dos Nine Inch Nails. Mas nele há "March Of The Pigs", e a sua violência entranhada, vibrante, contagiante que apela à dança… Um disco de emoções, sensações, que a cada escuta pede novas sacudidelas no corpo… e que tem "Piggy", e o no seu ritmo desconstrutivo da bateria, um fascínio que ainda hoje me deixa deslumbrado…

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sábado, dezembro 23, 2006

Peças de Roupa : : Nuno Guronsan

Pois bem, chegados à epóca natalícia cumpre deixar aqui os votos de boas festas e de um ano de 2007 em grande. Antes de começar a abrir presentes e a comer que nem um alarve, deixo-vos o contributo do Nuno Guronsan para o Peças de Roupa e a proposta para visitarem o Espaço Cinzento, blog da sua autoria.
1 - Tindersticks - Tindersticks (1993)

Será que se eu escrever que este foi o primeiro disco que eu ouvi que me agarrou pelos colarinhos, abanou toda a minha massa cinzenta, para depois me apertar o coração com tamanha força que as lágrimas não pediram licença para correrem pela minha face abaixo, será que se eu escrever isto ainda preciso de escrever mais alguma coisa para vos explicar o que este disco significa para mim?
2 -
Vitalogy - Pearl Jam (1994)
Raiva, melancolia, experimentalismos vários, guitarras estridentes e uma bateria de alguém possuído pelo fantasma de John Bonham. Depois do arrefecer do caldeirão made in Seattle, havia de surgir este objecto estranho e que permanece estranho na carreira destes senhores. Ainda hoje se ouvir um acordeão, só me consigo lembrar que os "bugs" andam por aí...
3 - The Fifth Release From Matador - Pizzicato Five (2000)

O meu comprimido anti-depressivo. A banda sonora perfeita para o meu sorriso que gosto de manter infantil. O disco que levaria não para uma ilha deserta mas para dentro de um cartoon dos Looney Tunes. Não sei o que é que estes japoneses andaram a tomar mas ainda bem que o tomaram. E é daqueles albúns onde a cada audição se consegue descobrir coisas novas. Um blip que ainda não tínhamos ouvido, uma voz japonesa com sotaque brasileiro, ou mesmo alguém a pôr o disco na rotação errada.

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quinta-feira, dezembro 21, 2006

Peças de Roupa : : Aristides Duarte

Voltado às fardas e guarda-vestidos, direccionamos os convites para quem vai partilhando espaços noutros sítios da net. A primeira resposta à chamada, facto que deixa o LD extremamente lisonjeado, veio de Aristides Duarte, responsável pelo excelente Rock em Portugual, um dos blogs mais interessantes sobre a música que por cá se vai ouvindo. Sobretudo, no que diz respeito à recolha de objectos há muito desaparecidos - fotos de concertos, capas de álbuns, bilhetes. Depois do blog, saiu o livro "MEMÒRIAS DO ROCK PORTUGUÊS", uma excelente prenda para a época. Aqui estão os três momentos escolhidos.
1 -
London Calling - The Clash (1979)
Um disco intemporal. Hoje um clássico de todo o Rock mundial. Lembro-me bem de ter adquirido esse LP duplo, edição portuguesa da Rádio Tiunfo, e começar a ouvi-lo, em Novembro de 1979, completamente deslumbrado com aqueles sons. Não tenho a certeza, mas acho que foi o primeiro disco dos Clash que adquiri. O primeiro deles nunca foi editado em Portugal, em formato LP. Mais tarde adquiri-o, assim como adquiri todos desta banda. Hoje, tenho-os todos em CD.
2 -
Faces - Artes & Ofício (1979)
Os Arte & Ofício foi a primeira banda que vi ao vivo, num dia de Abril de 1978, no Liceu da Guarda. Fiquei fascinado com aquele aparato e constatei o profissionalismo da banda. Até aí só conhecia grupos que tocavam em bailes. Foi com os Arte & Ofício que comecei a gostar de Rock português. Não demorou muito até adquirir esta obra, saída em 1979 e deslumbrar-me com a música da banda, agora em minha casa. Hoje é um clássico, apesar de todos os defeitos que lhe possam ser atribuídos.
3 - Eito Fora - Brigada Victor Jara (1977)
Adquirido, por mim, em 1979, quando todo o resto do pessoal conhecido andava numa de "disco-sound", que eu detestava. Foi este o disco que me fez descobrir a música portuguesa, extra-Rock e extra- ligeira. O verdadeiro pimba ainda não existia, nem fazia falta. Valeu a pena ter comprado esse disco, já que a partir dele conheci muitos e muitos grupos da mesma área musical, que valeram bem a pena.Hoje tenho todos os discos da Brigada Victor Jara em formato CD, incluindo um que nunca saiu nesse formato, mas que tenho a partir do vinil. Uma banda fundamental no meu percurso de descoberta da música.

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domingo, novembro 12, 2006

Peças de Roupa : : Francisco Silva

Não me lembro do primeiro álbum que adquiri com as minhas parcas economias de miúdo, mas tenho ainda bem presente o primeiro da colecção, oferecido como prenda de Natal: Xutos ao Vivo, o mítico concerto gravado no pavilhão "Os Belenenses", em 1988. Da conversa que mantivemos com Francisco Silva, faltou revelar as suas escolhas para o Peças de Roupa. E é mais ou menos por aqui que começam, pela sua primeira aquisição...
1 - Thriller - Michael Jackson (1982)
O primeiro álbum que comprei com o meu dinheiro e o primeiro momento em que a música deixou de ser “papel de parede”. Ainda hoje é um disco que ouço com o duplo prazer da nostalgia e da melomania.
2 - I see a darkness - Bonnie ‘Prince’ Billy (1999)
A peça que demonstrou definitivamente que a grande arte tem pouco a ver com o saber fazer e que o sublime só se atinge por meio do (demasiado) humano.
3 - Blue - Joni Mitchell (1971)
Durante muito tempo – e talvez ainda agora, não sei – o álbum mais genuinamente bonito da minha discografia. Está lá o “A case of you”. Se calhar bastava isso.

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quinta-feira, novembro 02, 2006

Peças de Roupa : : Se7eS

Enquanto adolescentes, e tendo em consideração que as economias dependiam muito da boa vontade de mesadas e trocos que nos iam chegando, contactávamos com os albúns numa cadência diferente. Dada a falta de dinheiro, sobrava-nos a hipótese de trocar cassetes entre amigos, e sorver cada som até à última nota; um álbum durava muito tempo. E era também nessa altura que mais nos marcavam, por sequência normal da fase de crescimento. Hoje, porque a música nos vai aparecendo de todo o lado, demoramo-nos menos tempos naquilo que vamos conhecendo. Acredito, pois, que seja na fase pré-adulta que nos agarramos com maior afinco a estes objectos. Não que então tenhamos descoberto as bandas sonoras das nossas vidas, mas de certeza que foi por ali que elas mais tempo rodaram nos velhinhos gira-discos e walkmans.
Foi nesta perspectiva que o Se7eS, um amigo Maiato que por cá nos tem visitado, respondeu ao Peças de Roupa: sonoros que lhe sublinharam fases de vida. É um interessante ponto de vista, contar os nossos passos pelos ouvidos. Aqui estão essas escolhas:

1 - The Joshua Tree - U2 (1987)
O primeiro amor platónico.

2 - Trompe Le Monde - Pixies (1991)
A descoberta do amor carnal.

3 - Nevermind - Nirvana (1991)
A afirmação do adulto.

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segunda-feira, outubro 30, 2006

Peças de Roupa : : Nuno Prata

Visitar o guarda-roupa de um músico tem um interesse acrescido: conhecer e perceber melhor o seu próprio trabalho. Há uma ligação umbilical àquilo que se foi escutando ao longo dos anos e que, necessariamente, se reflecte no que é criado. No caso de Nuno Prata, essa dinâmica é evidente. Aqui ficam as suas vestimentas, na primeira pessoa:

1 – Campolide - Sérgio Godinho (1979)
Foi um dos primeiros discos que ouvi do Sérgio Godinho, juntamente com o "Pano Cru" e o "Canto da Boca". Eram da mãe do Manel Cruz e trouxe-os para casa emprestados uma data de tempo. Com eles comecei a aperceber-me que as canções não são só de quem as escreve mas também de quem as ouve.

2 - New Times - Violent Femmes (1994)
É um disco menos conhecido, o primeiro depois da saída do mítico Victor DeLorenzo (que uns anos mais tarde voltou). Tem uma capa estranha da autoria de Guy Hoffman — que entrou para o lugar de DeLorenzo —, em que ele joga com o título do disco e o nome da banda: "Violent Times, New Femmes", acabando por dar uma boa definição do disco.

3 – Livro - Caetano Veloso (1997)
Há neste disco canções de que não gosto particularmente, mas aquele "Vem…", seguido da entrada das percussões na primeira canção, "Passistas", e os versos "Os livros são objectos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil / Que votamos aos maços de cigarro" da segunda canção, "Livros", levaram-me a querer conhecer melhor o trabalho do Caetano Veloso.

A propósito, o Nuno Prata vai estar no próximo Sábado, dia 4/11, pelas 21h45, no Centro Cultural de Alfena (Valongo). Os bilhetes custam a módica quantia de 1 €.

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segunda-feira, outubro 23, 2006

Peças de Roupa : : Ricardo Tolentino

Segundo guarda-roupa em espionagem. Desta feita, e ainda vasculhando no círculo de amigos, tentamos perceber como se veste quem se dedica à construção de espaços; o Ricardo Tolentino vai dividindo o seu tempo pela Arquitectura, num vai-vém constante entre o Porto, cidade-natal, e Viseu, chamemos-lhe cidade-laboral. Para alcançar o almejado equilíbrio entre pessoas e construções, presumo eu que seja necessário adpotar diversas perspectivas. É o caso:
1 - Dig your own hole - The Chemical Brothers (1997)
Para me soltar sozinho com gente à volta, vestir a pele do lobo, sentir o sexo a pulsar, ganhar velocidade, descolar...
2 - OK Computer - Radiohead (1997)
Para ouvir até à última migalha. Os sons são esticados até ao limite, mas cobertos por uma manta translúcida de sossego e ternura. A resposta interior não pára de se contorcer.
3 - Koln Concert - Keith Jarret (1975)
Os longos segundos de palmas que seguem o terminar de cada faixa são por mim perfilhados com igual fervor. Intemporal, este álbum é a beleza depurada, claridade ofuscante.

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domingo, outubro 22, 2006

Peças de Roupa : : Olavo Lupia

E para inaugurar, nada melhor que ouvir os ensinamentos do Exmo. Sr. Professor e Doutor Olavo Lupia, catedrático nestas andanças e com quem muito aprendi e aprendo no delicioso mundo dos sons. Melómano a tempo inteiro e músico quando a azáfama do dia-a-dia o permite, Olavo aceitou o desafio: aqui ficam as peças com que o mesmo se foi vestindo nestes 29 anos que por cá tem andado.
Aproveito a oportunidade para convidar os mais desatentos a visitarem o tasco do Sr. Professor, que vale bem a pena: androideparanoide.blogspot.com.
Por aqui, a regra é simples: pede-se apenas, para cada três peças de roupa, três pequenas divagações. Eis a fatiota de Olavo, em discurso directo:
1 - O.K. Computer (1997), Radiohead
Como muitos da minha idade, eu ouvi o rock alternativo que tinha saído de Seattle do princípio dos anos 90. Por esta altura, a minha banda preferida era Soundgarden e pensava que não se conseguia ser muito melhor que aquilo - o que, em termos de rock, continuo a achar. Radiohead eram, para mim, os baladeiros do Creep, High & Dry ou Fake Plastic Trees. Até que, após insistência de um amigo, ouvi o OK Computer. Jesus! Fiquei com um sorriso na cara que me demorou dias a tirar. A música que despoletou todo esse processo e que me chamou a atenção foi a segunda, Paranoid Android. O disco é, para mim, perfeito. O equilíbrio e a coerência entre as músicas é brilhante. Porque é que me marcou tanto? Libertou-me as amarras e tirou as palas que eu tinha: nem tudo o que era feito em volta de guitarras podia ser sublime. Musicalmente, acho que é mesmo o grande "turning point" da minha vida.
2- Grace (1994), Jeff Buckley
A verdadeira banda sonora da "dor de corno". A voz do Buckley é uma coisa que transtorna qualquer pessoa que seja dotada do sentido da audição. Mojo Pin vem das vísceras e a entrada da voz põe-nos em sentido! Grace é um hino perfeito ao amor e à mortalidade, que o próprio veio a sentir na pele. Last Goodbye é uma música impressionante: as melodias parecem demasiado perfeitas e naturais para serem verdade. Belíssima a versão de Lilac Wine , já imortalizada pela voz de uma das suas grandes referências, Nina Simone. A composição de So Real (para mim, que até tenho umas noções elementares de guitarra e de composição) deixou-me (e deixa ainda) com 10cm e a falar muito fininho. Hallelujah é a definitiva e sedutora versão da música escrita por L. Cohen. Lover, You Should've Come Over é uma das mais belas canções de amor já escritas por qualquer humano (partindo do pressuposto de que o JB o era...). Corpus Christi Carol é mais um tour de force da fabulosa voz de Buckley. A nota mais rock e mais social vem com Eternal Life. Dream Brother fecha o disco com chave de ouro - e a sua versão live é fenomenal.
3 - Mule Variations (1998), Tom Waits
Não é o meu disco preferido de Tom Waits, mas foi esta a minha porta de entrada para o Tom Waits. E Tom Waits é, se não o meu preferido, um dos meus preferidos. A escrita de canções, os vários "mundos" em que Waits vive e aquela voz... aquela voz... Se Buckley ou Thom Yorke corresponderiam a vozes de anjos, Waits correspondem à voz "de lá de baixo"! E este disco é um bom exemplo de que uma voz tão "marcada" como a de Waits pode ser multi-facetada. Em quase todas as músicas, ele usa o seu instrumento vocal de forma diferente. Um verdadeiro génio.

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Peças de Roupa

A evolução da Internet veio alterar, profundamente, o mundo da música, dos músicos e dos seus consumidores. Sem querer elencar proveitos e custos destes novos caminhos, há no entanto uma realidade da qual me é difícil abdicar: o formato álbum.
O futuro não é muito difícil de prever: daqui a muito pouco tempo, a musica será quase integralmente comercializada sem qualquer suporte físico - por certo, as editoras passarão a disponibilizar apenas, como já vêm fazendo amiúde, catálogos de singles isolados.
Não vejo os álbuns como um conjunto disforme de canções; vejos-o como um livro, como uma entidade autónoma, com princípio, meio e fim. Por isso sempre me fascinaram os trabalhos conceptuais, escritos em torno de uma ideia que se desenvolve em cada um dos trechos musicais que compõe o produto final. E o próprio objecto físico também faz parte integrante da devoção, com os booklet's, as letras, as capas e as fotos. Se já muito se tinha perdido com a passagem do vinil para o compact disc, muito mais se evaporará com o advento da venda de ficheiros singulares de mp3.
Precisamente para avivar a nossa memoria sobre estes magníficos objectos, e que ao longo da nossa vida nos marcaram de uma qualquer forma, a rubrica Peças de Roupa visitará amigos, desconhecidos, músicos, melómanos e afins, propondo-lhes um pequeno desafio: divagar sobre três obras musicais que os acompanharam num qualquer momento das suas vidas. Sem qualquer preocupação estatística ou obsessão de construção de uma daquelas listas chatas de “favoritos”.
Obrigado àqueles que responderam ao desafio.

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Autor

  • sombra
  • Porto, Portugal
  • sombra.lenta@gmail.com
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